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Irreverência XXI

A escrita de um Social - Democrata perdido no pântano das opiniões politicas e sociais. Europeísta convicto, Ecologista aguerrido, Democrata confiante e defensor dos valores da esquerda com convicção.

 Por um LIVRE, para fora e para dentro

03.12.19 | Jorge Pires

  O LIVRE tornou-se um assunto pelas piores razões. Ao contrário do que eu esperava, como militante, o momento que o LIVRE vive não abona ao futuro do partido, cuja a dimensão e estrutura não tem capacidade de contornar momentos como este sem deixar cicatrizes profundas em próximos actos eleitorais. 

 Seria pouco sério se negasse que os sinais demonstrados não fossem óbvios no caminho que a deputada Joacine queria trilhar. Todas as intervenções da mesma foram pautadas por o discurso identitário e as consequências da colonização. Aquilo que foram as bandeiras, e que espero que regressem, deixaram de existir na linguagem do partido. O mesmo partido que se quis diferenciar da restante esquerda, e com razão, alegando que as trincheiras partidárias não eram o caminho, foi o mesmo que se extremou após Joacine ter sido eleita. E disso não podemos, nós militantes, de nos imiscuir na culpa.  Eu que não votei em Joacine em primárias, acabei por a eleger e convencer quem o fizesse. É óbvio que neste momento tenho alguma vergonha por sentir que enganei eleitores do LIVRE quando lhes vendi uma esquerda responsável e ambientalista e eles compraram um modelo extremo de alguém que prefere actos desnorteados a discursos sérios. Mas acredito que o partido possa dar a volta por cima no sentido de aprender que as diferenças podem não ser favoráveis tendo sempre em consciência que algumas coisas vão ter de mudar no que é a organização partidária e que o partido, por mais aberto que seja, deve ser representado e não ser um outsourcing de idealismos. Isso será sempre um debate interno.

 Este assunto trouxe ao de cima o que se esperava após os resultados de seis de outubro. Por um lado o senso de algumas opiniões sobre os processos eleitorais do LIVRE, em que merece alguma reflexão interna, por outro um conjunto de vozes silenciadas por uma eleição que julgavam improvável. Para além das redes sociais serem nitidamente o espelho da militância do Bloco de Esquerda quanto ao LIVRE, os poucos "amigos" de Rui Tavares e uma certa elite do comentário têm demonstrado, tristemente, opiniões que não são apenas referentes ao momento do LIVRE, mas transportam algum preconceito com o aparecimento de novas forças políticas e maior representatividade legislativa. As críticas tecidas ao LIVRE que apelidam a falta de experiência a uma mistura de amadorismo e vazio de ideias demonstra a desonestidade intelectual do mercado de opiniões e um preconceito que se esconde atrás dos erros. Mesmo que existam argumentos suficientes que demonstram precisamente o contrário do que é expressado em panorama televisivo, é natural que o sangue fervido ultrapasse.

 

  É um momento particularmente difícil para o LIVRE, no entanto convém rapidamente voltar aos principais temas que elegeram o LIVRE e abandonar rapidamente a personalização que Joacine Katar Moreira impôs ao partido. Este momento deve ser principalmente um momento de reflexão do partido quanto ao caminho que queremos trilhar e aos riscos da sua demasiada abertura. Certo é que as críticas, sejam as mais positivas, até mesmo as mais negativas, devem ser tidas em conta. Não podemos nos dar "a luxo" de deslizar, muito menos de desvalorizar os avisos que foram feitos, interna e externamente, quanto ao extremo discurso da candidata. A sobrevivência de uma força política não pode ser feita repetindo os mesmos erros, tem de existir humildade para assumir o erro de casting que foi a eleição de Joacine. 

  O recado que deixo internamente deixo também externamente. Não é pelos erros que o LIVRE se vai diluir, muito menos pelos preconceitos com os fundadores e o próprio partido. Partir do princípio que o LIVRE seja apenas a Joacine e o Rafael é um princípio errado. A capacidade intelectual do LIVRE vai muito mais para lá do que apenas duas personagens. Agora resta o LIVRE sair deste momento sem arranhões que se tornem crônicos e dar a volta por cima. Mas sem Joacine certamente.